No início do século XIX, apenas 2% da população mundial era urbana. No começo do século XX, essa porcentagem subiu para 10%. Em 2011, a população mundial vivendo em áreas urbanas atingiu 50%. Estudos econômicos históricos mostram que existe uma correlação positiva entre urbanização e desenvolvimento. A urbanização tem sido, e continua a ser, mais uma fonte que um resultado de desenvolvimento. Ela pode ser usada como ferramenta para transformar a capacidade de produção e os níveis de renda em países em desenvolvimento. Isso exige uma mudança de mentalidade por parte dos governantes, que se distancie da ideia de que a urbanização é um problema.
Os principais desafios enfrentados pelas cidades hoje incluem o desemprego, especialmente entre a juventude; desigualdades sociais e econômicas; padrões insustentáveis de consumo de energia; expansão urbana; e emissões crescentes de gases de efeito estufa. Cidades em países em desenvolvimento enfrentam ainda desafios adicionais: grande porcentagem de pessoas vivendo em favelas; expansão e domínio do setor informal; serviços urbanos básicos inadequados, especialmente de água, saneamento e energia; expansão não planejada; conflitos sociais e políticos por causa dos recursos da terra; altos níveis de vulnerabilidade a desastres naturais; e sistemas de mobilidade precários.
Essas questões devem ser abordadas por meio de planejamento e governo eficientes. Existem quatro pré-requisitos fundamentais promovidos pelo ONU-Habitat. O primeiro é a tomada eficaz de decisões políticas. A urbanização planejada exige uma capacidade política institucional forte para administrar diferenças, disputas por terra e conflitos de interesse. O segundo é um bom entendimento do uso e da produtividade de bens comuns. O espaço público urbano é o bem comum mais importante. O terceiro é a capacidade efetiva do governo. A transição da urbanização espontânea para a urbanização planejada exige uma forte competência do governo, tanto no nível nacional como local. O quarto pré-requisito da expansão urbana planejada é a capacidade técnica adequada para planejar, desenvolver e administrar a cidade.
Esta é uma época de soluções. O desenvolvimento histórico não é meramente um fenômeno demográfico. Não é apenas uma mudança na concentração da população nem um simples crescimento no tamanho das cidades. A cidade é uma força vibrante e poderosa para o desenvolvimento. Exerce um impacto tremendo no bem-estar em nível global, regional, nacional e local.
Existe uma necessidade de reafirmar a própria essência histórica das cidades como o local onde seres humanos encontram a satisfação das necessidades básicas e acesso aos bens públicos essenciais. É onde ambições, aspirações e outros aspectos materiais e imateriais da vida se realizam, proporcioando contentamento e felicidade.
A busca pela prosperidade tem sido severamente desigual e desequilibrada. Ela está em grande medida reduzida a preocupações econômicas, só beneficia grupos sociais segmentados e está restrita a áreas isoladas.
Um primeiro passo seria desenvolver e implementar políticas urbanas nacionais. Elas deveriam garantir a maximização dos benefícios locais e nacionais da urbanização e, ao mesmo tempo, atenuar potenciais impactos negativos. Um segundo passo é planejar o crescimento da cidade, o que é necessário para lidar com o muito difundido fenômeno da informalidade urbana, incluindo a expansão caótica das periferias.
A cidade do século XXI ultrapassa a forma e a funcionalidade de modelos passados. Equilibra custos mais baixos de energia com uma pegada ecológica menor, uma forma mais compacta, maior heterogeneidade e funcionalidade, garantias contra novos riscos, uma provisão maior de bens públicos, maior "escala humana" além de espaços mais criativos para a imaginação e interação social. É hora de mudar nossas cidades e criar novas oportunidades. Isso implica uma mudança fundamental de paradigma e uma reavaliação de como entendemos tradicionalmente o desenvolvimento urbano. O lugar importa.
Autor: Joan Clos, subsecretário-geral das Nações Unidas e diretor executivo do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Urbanos








